Era possivelmente um dia como os outros, negro e chuvoso, como os últimos anos nos habituaram, uma lenta e progressiva caminhada para o fim, como todas as pseudo criações do homem. No parapeito da janela, ele contempla o que o rodeia, prédios gigantes, maiores que o alcance da visão dele, reluzentes pelas luzes que deles mesmos emergem e tentam em vão iluminar a rua, iluminar a escuridão que assola a cidade. D. 20 anos. Assolado pela dor de não saber o seu lugar, resigna-se a sobreviver pelas ruas, eterno sonhador, eterno vagabundo desta vida que não é a dele mas que é forçado a viver.
Atrás dele encontra-se o Caos, ele é o Caos espelhado no mundano sujo e pastoso que reflecte no espelho continuamente, como a água que escorre pela banheira rota e infiltra-se nos andares debaixo, corroendo o chão, arriscando-se a colapsar tudo como a vida dele.
O dia passa devagar. Ou será noite? D perdeu a noção disso tudo, limita-se a vaguear. Saiu de casa. Passeia pelas ruas desprovido de qualquer sentido de orientação, os pés é que o guiam, de olhos fechados. Chove e as lágrimas misturam-se com a chuva
just die already . Arrasta os pés pesarosamente, apesar de eles se mexerem por si próprios. O Caos persegue-o constantemente, atrás dele, segue-o como uma sombra, como a Morte.
Mas algo o fez levantar a cabeça. Algo o forçou a olhar para cima, para o escuro céu e nele viu algo distinto, algo como nunca tinha visto, uma luz, uma figura, mas rapidamente se desvaneceu, como um principio de algo mais, de algo melhor. Mas não, rapidamente caiu na real e voltou ao Caos que o persegue como a Sombra que cobriu o mundo e as ruas.
O Caos da cidade prende as pessoas a ele e não as deixa fugir, estão profundamente, intrinsecamente presos a ele.
Uma rua movimentada, o trânsito a fluir.
Sinal vermelho. A chuva a bater cada vez mais forte.
Verde. Avançou. D avançou por entre as pessoas, com a pressa de chegar a casa e desligarem por umas horas do Caos que nunca se deixa desligar.
Cada encontro, cada troca de energia, a ferocidade do olhar das pessoas é tremendo, sinal do Caos que as prende.
Mas nesse sinal verde
Nesse sinal verde, tudo ia mudar.
Uma troca de energia mudou tudo
Os fones funcionaram e tudo pareceu mais fácil
D viu-a, e ela viu D
A vida de D e do mundo inteiro iria mudar por completo, sem ele saber
Aqueles olhos castanhos
Aqueles olhos
Aqueles