12/11/11

Cap II - D

Corre, corre e não olhes para trás, ninguém te vai apanhar quando caíres, estás por ti próprio

O suor escorre-lhe pela cara, sentado na cama, sobressaltado e completamente alerta. Sonhou. Algo que não acontecia há muito, muito tempo. Sonhou com ela. Chamou-lhe de C. A rapariga dos olhos castanhos que teima em lhe consumir os pensamentos, continua e progressivamente até que o leve pensamento o intoxica e perde-se na longa procura dela. 
Sentado á mesa, os parcos cereais que pousam na colher, o leite, azedo, os vómitos a virem ao de cima. Uma barata percorre o tampo da mesa. A mão estende-se para lhe acertar, mas um impulso para-o, quase como se alguém estivesse ao lado dele e lhe bloqueasse o braço. Dá os poucos cereais ao insecto, que naquele momento era maior e mais profundo que a existência de D.
Exterior. A mesma chuva de sempre. Os prédios, monumentos á estupidez humana e à sua lenta destruição e degredo. Há muito que D caminha sozinho. Os pais morreram no último surto. Foi o único sobrevivente da vila onde morava, e semelhante a outras vilas e cidades que foram dizimadas veio para a cidade, o único local que ainda se encontrava protegido do surto, e aí conseguiu sobreviver por mais uns tempos. Até que o surto chegou. E levou com ele grande parte da civilização. E D ficou sozinho outra vez. Sobrevive com o pouco que arranja, em lutas, em apostas e a roubar, se for preciso. Sonha em sair da parte velha da cidade e ter uma vida melhor. 
Uma sensação estranha percorre-lhe o corpo, uma sensação de tremura, e uma voz soprou-lhe ao ouvido algo que ele não conseguia perceber bem, algo estranho, algo de novo. Olhou em redor, não viu ninguém. Olhou para cima. A mesma figura no céu, mas desta vez pareceu mais perto. Tentou perceber se era o único a ver, mas ninguém olhava para cima. Todas as pessoas olhavam para baixo, como se nada os perturbasse e continuassem na triste vida que levavam. Mas nada. Nada. O que era isto que o fazia sentir-se tanto bem como terrivemente apreensivo e negativo. O que era esta sensação, de conforto desconfortável? D não percebia. Mas alguém o observava.
Alguém com olhos castanhos

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